home

search

3. O coração da Masmorra

  A sombra de Shade se deformava no ch?o irregular da masmorra, esticada e partida pelas fissuras da pedra como se o próprio lugar tentasse puxá-la de volta. Atrás dela, o som n?o vinha de passos individuais, mas de um mar em movimento: centenas, talvez milhares de criaturas avan?ando em bloco, um emaranhado de silhuetas que se sobrepunham e se desfaziam na penumbra.

  N?o havia ritmo. N?o havia ordem. Só fome.

  Shade arriscou um olhar rápido por cima do ombro, erro quase fatal. As sombras pareciam crescer quando observadas, como se o ato de vê-las lhes desse permiss?o para existir com mais for?a.

  — …Tá. Péssima ideia.

  à frente, algo que n?o pertencia àquele caos se imp?s à vis?o: uma estrutura colossal emergindo da rocha, antiga demais para ter nome. Degraus imensos subiam em espiral ao redor de um núcleo central, lembrando templos de civiliza??es soterradas pelo tempo e pela culpa. As paredes eram talhadas com símbolos que n?o imploravam por adora??o, exigiam.

  — "é ali… "

  A voz murmurou, falhando.

  — Talvez eu consiga me proteger…

  (Meu pai amado, o que foi que eu fiz?)

  For?ando as pernas a obedecer, Shade correu. Cada passo ecoava alto demais, denunciando sua presen?a, enquanto o cora??o batia como um tambor de guerra dentro do peito. A porta do templo, uma lamina de pedra maci?a, respondeu ao empurr?o com um rangido profundo, quase um lamento.

  Ela passou. Empurrou. For?ou.

  A porta se fechou apenas o suficiente.

  Um bra?o negro atravessou a fresta no último instante. Shade gritou, recuando, e a pedra esmagou o membro com um estalo seco. O bra?o caiu no ch?o, ainda se contorcendo, dedos se dobrando em espasmos inúteis, como se recusasse a aceitar o conceito de fim.

  Silêncio.

  — Ok…

  ela respirou fundo, apoiando as m?os nos joelhos.

  — Espero que isso seja… suficiente.

  O interior do templo era um labirinto de corredores e salas interligadas. Inscri??es antigas cobriam as paredes, algumas talhadas, outras queimadas na rocha, como se diferentes eras tivessem tentado deixar avisos, ou desculpas.

  Aquilo n?o contava histórias.

  Registrava sobreviventes.

  O ar era pesado, comprimido, como se o tempo ali dentro tivesse sido dobrado e empilhado camada sobre camada.

  Enjoying the story? Show your support by reading it on the official site.

  No centro de uma camara circular, algo a aguardava.

  A criatura era alta, humanoide apenas na propor??o. A pele tinha um brilho metálico gasto, e os olhos, olhos demais, emitiam uma luz fria, que n?o iluminava, apenas marcava presen?a.

  Ela falou.

  — ??????????????????????????…

  O som n?o atravessou o ar.

  Atravessou Shade.

  Os símbolos se rearranjaram dentro da cabe?a dela como pe?as vivas. O Alfabeto Estrelar n?o veio como tradu??o, mas como inten??o: peso conceitual pressionando o pensamento.

  Shade respondeu devagar, escolhendo cada palavra como quem pisa em vidro.

  A criatura inclinou a cabe?a.

  As inscri??es nas paredes pulsaram.

  N?o era raiva.

  Era julgamento.

  — …Merda.

  Ela entendeu tarde demais.

  N?o pedira passagem.

  N?o se apresentara.

  No idioma das estrelas, acabara de cuspir um insulto ritual.

  Xingara a linhagem. A origem. A memória.

  A criatura ergueu a m?o.

  O rugido que veio em resposta n?o foi apenas som, foi comando. As paredes vibraram em obediência.

  Shade virou-se e correu.

  O templo reagiu.

  Corredores se estreitaram no momento errado. Escadas se dobraram em angulos que doíam de olhar. Símbolos se apagavam atrás dela e surgiam à frente, como se o lugar redesenhasse o caminho para testar limites.

  — Tá vendo?!

  ela gritou, o f?lego queimando.

  — Eu só t? correndo! Se quiser me pegar, venha logo!

  (Por que eu sou t?o fraca…)

  A risada surgiu dentro da cabe?a dela, íntima demais.

  — "Fugindo… sempre fugindo… tinha que ser uma frangote."

  Shade puxou o ar, o sarcasmo vindo automático.

  — Ah, claro. Posso abrir uma fenda no espa?o-tempo, explodir uma parede, invocar um exército inteiro… mas n?o. Hoje n?o. Hoje eu corro. Arrombada.

  — "N?o xingue a si mesma... Hehe"

  a voz corrigiu, quase com cuidado.

  Quando o espa?o finalmente se abriu em uma sala ampla demais para ser acidental, Shade parou.

  No ch?o, ocupando quase todo o centro da camara, havia um desenho colossal de uma árvore.

  O tronco era pintado em dourado vivo, mas n?o refletia como o ouro ilusório da floresta. Absorvia.

  Os galhos se espalhavam em padr?es organicos, e na ponta de cada um havia frutos platinados, pulsando em ritmos distintos. Abaixo deles, extens?es que pareciam pernas, penas, ou... plumas? Onde se multiplicavam em camadas infinitas, policromáticas, vibrando como o espectro fragmentado de algo impossível. Por um instante, Shade pensou em um camar?o-pistola. No impacto de luz. Na violência escondida dentro da beleza.

  Talvez fosse isso.

  Aquilo era…

  Shade sentiu o mesmo frio da pluma.

  O mesmo aviso sem palavras.

  — …Uma árvore.

  Ela riu baixo, sem humor.

  — Claro que é.

  A vis?o era bela e errada.

  N?o amea?ava.

  Esperava.

  Algo se moveu sob a pintura.

  N?o foi o ch?o.

  Foi a árvore.

  Um dos frutos dourados pulsou com for?a, rachando a tinta como se estivesse prestes a nascer.

  A voz dentro da cabe?a de Shade sussurrou, pela primeira vez sem deboche:

  — "…Agora você chamou aten??o de verdade."

  Shade engoliu seco.

  — ótimo.

  Ela apertou os punhos.

  — Ent?o que venham...

  Fim do capítulo 3

Recommended Popular Novels