A ansiedade de Micah foi interrompida quando o trote constante da carruagem cessou. Ele foi algemado novamente e levado para fora, junto de Ezra e seus guarda-costas.
Um enorme port?o refor?ado com placas de ferro terminava abruptamente o caminho da ponte. Em contraste com sua superfície fria, o port?o refletia uma luz quente, originada por dois grandes braseiros instalados em cada lado do port?o. A ilumina??o permitia que Micah percebesse algo que à primeira vista passara despercebido: finíssimos padr?es prateados, espalhados pela superfície das placas como uma teia meticulosa de veias metálicas. N?o pareciam meros enfeites — seus tra?os se entrecruzavam em fractais perfeitas, lembravam, vagamente, a geometria funcional das marcas térmicas em vidra?as de carros modernos, como se estivessem ali para dispersar algo energético.
E apesar da precis?o técnica, havia algo organico demais naquelas marcas, como se o metal tivesse crescido na superfície como um fungo — e n?o sido gravado por m?os humanas.
Por um único instante, Micah até viu um movimento nos padr?es, como se respirassem, igual à um ser vivo.
No entanto, rapidamente descartou isso como imagina??o, afinal, só poderia ser mais uma alucina??o de seu cansa?o.
Em frente aos braseiros, havia duas duplas de guardas adjacentes uma da outra, todas carregando alabardas. No entanto, havia um quinto guarda que realmente chamava a aten??o. Ele estava fixo bem em frente ao port?o, apoiando uma longa espada no ch?o de pedra. Seu rosto, enrijecido e enrugado pelo tempo, estava parcialmente coberto por uma barba cheia. Seus cabelos negros que chegavam até os ombros, juntamente com seu elmo de chaleiro, projetavam uma sombra sobre seus profundos olhos, dificultando ainda mais identificar qualquer express?o dele. Diferente dos outros soldados, ele usava um uniforme com a cor de bronze, assim como a meia capa de Ezra, além disso, também carregava uma bra?adeira no bra?o direito da mesma cor, com o diferencial de ter um símbolo estranho nela, um olho coberto por uma linha horizontal.
Sua postura era completamente diferente dos outros guardas, enquanto seus colegas conversavam entre si, ele permanecia em sua posi??o, t?o imóvel quanto uma estátua pregada ao ch?o.
Sua presen?a era desconfortável, quase amea?adora.
Assim que todos saíram da cabine, um guarda jovem — bronzeado, de fei??es ibéricas — pegou um livro grosso de cima do parapeito da ponte e se aproximou:
— Boa noite, Alquimista Real. — Cumprimentou ele, abaixando a cabe?a por um momento. — Devo admitir, o senhor é bem sortudo, o toque de recolher está quase iniciando. Se tivesse chegado alguns minutos depois provavelmente nosso superior n?o permitiria sua entrada. — Comentou enquanto anotava o nome de Ezra e seus servos. O movimento havia se tornado automático após conhecê-los a tanto tempo.
O guarda fechou o livro e levantou a m?o direita próximo à boca, cochichando de forma conspiracional:
— O senhor já deve saber como o Eastmund é... Aposto que n?o faria vista grossa nem mesmo ao próprio pai.
O alquimista soltou uma risadinha curta.
— é, Gunther, você tem raz?o, tenho que come?ar a ser mais responsável com o horário. Especialmente lidando com homens t?o... bem humorados. — Adicionou sarcasticamente, dando uma breve olhada no guardi?o. — Como vai a padaria da família?
Gunther deu um suspiro cansado, co?ando a cabe?a enquanto pensava em uma resposta apropriada.
— Estamos levando... Nosso pai continua pulando de bar em bar. Eu e meus irm?os seguimos cuidando de tudo. Hoje eu até tive que pagar indeniza??o porque ele resolveu comprar briga com um escravo ruivo. — Ele massageou suas têmporas com a m?o livre. Esse assunto sempre lhe causava uma leve dor de cabe?a. — Mas n?o culpo ele, luto realmente é algo complicado demais. Acredito que Axis colocará senso na cabe?a dele eventualmente...
Enquanto Ezra e Gunther punham a conversa em dia, Micah viu um reflexo estranho na superfície do lago. Quando olhou pra cima, ficou, ao mesmo tempo, assombrado e maravilhado com a vis?o.
Ao invés do céu noturno que estava acostumado à ver, um plano negro que escondia as estrelas por conta da polui??o metropolitana, ele viu milhares de rachaduras t?o brilhantes quanto os astros de seu mundo natal. Era como um quadro que n?o tinha fim, cada canto do céu era acompanhado por esta teia onipresente. Parecia frágil, como se uma simples pedra pudesse fazer tudo desmoronar, e ainda assim eterno. Era lindo, mais lindo do que qualquer coisa que já tivesse visto e Micah n?o conseguia parar de admirar.
Hahahah haaah...
Vocês tinham que ver a cara dele.
Ele parecia um débil mental olhando pra cima com a boca aberta!
Hilário.
Pois bem...
Aquela vista, mesmo que ele n?o soubesse o que significava, destravou algo na cabe?a dele.
Era perturbador, ele se sentia cada vez mais longe de casa. E ainda assim, isso fez Micah pensar que talvez estar em um mundo novo n?o fosse t?o ruim quanto imaginava.
Sua vida agora tinha um novo e extenso portfólio de desgra?as, mas também um renovado catálogo de maravilhas a serem descobertas.
Seu devaneio foi interrompido pelo som de madeira arrastando contra pedra, e das múltiplas dobradi?as mal lubrificadas esperneando enquanto o grande port?o se movia.
O rangido gutural do port?o n?o era apenas o som de dobradi?as antigas — era algo mais profundo, mais cheio, como se os metais estivessem recuando por vontade própria, e n?o apenas por for?a humana ou mecanica.
Micah percebeu isso ao notar que os padr?es prateados vibravam como cordas tensionadas. Por um instante, ele sentiu o som mais no peito do que nos ouvidos, como uma press?o interna, e um formigamento percorreu seus dentes. Ele n?o podia descrever a sensa??o precisamente, mas era como se o port?o estivesse... ansioso?
Gunther acenou para Eastmund, que logo em seguida levou dois dedos à boca e soprou um apito curto e seco.
Micah esperava ouvir algo.
Mas nada veio.
Nada — além de uma vibra??o quase nauseante, como se o ar tivesse sido torcido ao redor deles.
O guardi?o de bronze diante do port?o n?o se mexeu. Mas o port?o sim.
As veias prateadas se contraíram como tend?es. Ele viu — ele viu claramente — uma das linhas metálicas se estreitar e se enrijecer, como um músculo no momento exato da contra??o. Em seguida, o metal relaxou, fluindo de volta como se fosse mercúrio sólido.
Era como observar um organismo obedecendo a um reflexo.
— O que foi isso…? — sussurrou, sem notar que falava em voz alta.
Ezra apenas co?ou sua barba rasa com desinteresse:
— Prata Psicóide ou, como o pov?o chama, “Prata Viva”. Muito mais antiga que essa cidade. — respondeu em tom casual enquanto ajeitava os luvas, como quem descreve a mostarda em um cachorro-quente. — Tecnicamente, ela n?o é um ser vivo. Mas responde a sons específicos.
— Sons?… Sons… que eu n?o ouvi?
Ezra ergueu uma sobrancelha, dando um sorriso de deboche.
— Claro que n?o ouviu. Você n?o é um port?o.
Eastmund soprou o apito de novo, desta vez com uma sequência mais longa e ritmada.
Micah sentiu o som, dessa vez, como uma pontada fina no fundo da nuca — um eco dentro do cranio, como se a vibra??o pressionasse sua mente por dentro.
O port?o reagiu.
As linhas prateadas pulsaram todas ao mesmo tempo, como se um único cora??o batendo sob o ferro ordenasse a abertura completa. Os painéis pesados recuaram com um tranco úmido — n?o mecanico, mas quase organico, como uma boca abrindo.
Micah recuou um passo instintivamente.
Ainda aflito, mas hipnotizado, observou enquanto o port?o se abria por completo — e conforme o mecanismo funcionava, as veias metálicas se sincronizavam e contraiam de maneira totalmente coordenada.
Como músculos obedecendo a um ritmo.
Um ritmo que apenas o metal reconhecia.
E que apenas o apito revelava.
— Isso… isso está vivo de verdade? — murmurou.
Ezra piscou, quase ofendido pela obviedade.
— Bem… vivo o suficiente para obedecer. N?o vivo o suficiente para pensar. Um equilíbrio perfeito, se me permite dizer.
O alquimista falou isso enquanto passava o dedo com reverência por um dos fractais metálicos.
A prata viva se afastou do toque dele, retraindo-se como pele arrepiada.
— Ela lembra uma criatura reagindo a estímulos. — completou o alquimista. — Ou uma máquina. Ou… ambas.
Ezra suspirou por um breve momento.
— O próprio Edgarl Samkov que enxertou e treinou essa obra-prima da engenharia alquímica... Mas, desde sua santifica??o, n?o posso retreina-la sem a supervis?o de um desses bispos enxeridos. Como se um simples estudo fosse uma forma de sacrilégio! Retrógrados ignorantes. — Desabafou mais pra si mesmo em um cochicho rancoroso.
— Esses sons… — arriscou Micah. — Eles s?o como… apitos de cachorro?
Ezra sorriu, divertido. Imediatamente transformando sua conduta:
— Hm. Sim, essa é uma boa compara??o. A única diferen?a é que, se você assobiar esses sons perto da prata viva… ela tenta matar você pela insolência de imitar seus superiores.
Micah empalideceu.
Ezra deu um tapinha nas costas dele, como quem dá parabéns a um recruta.
— Fique tranquilo. Você ainda n?o é importante o suficiente para ela tentar esmagar. Vamos.
O grupo atravessou o port?o, enquanto Eastmund — Com seu rosto imóvel como de uma estátua sagrada — saia do caminho da carruagem, apenas acompanhando-os com olhos vazios.
E atrás deles, a prata viva pulsou uma última vez, como um suspiro metálico.
Ao fechar o port?o, as veias se entrela?aram novamente, formando padr?es perfeitamente simétricos — t?o exatos que nem pareciam feitos para serem vistos, mas para serem lidos.
Como se fossem palavras numa língua que nenhum humano possuía órg?os adequados para pronunciar.
Mesmo no escuro a diferen?a entre a Ilha Central e o resto de Edel-Füllhorn era clara como o dia. A primeira coisa a se notar era o saneamento. Haviam múltiplos bueiros no meio-fio, que, devido à natureza fechada da ilha, estavam lá para evitar alagamentos durante fortes tempestades, ao contrário dos Anéis externos, que estavam à mercê da boa vontade de Veédras. Além disso, aquedutos conectavam o lago às diversas casas e mans?es que pontilhavam a ilha, enquanto o camponês comum levava água para sua casa e horta por meio de baldes. As ruas n?o tinham um único resquício de sujeira, e até mesmo as casas da baixa nobreza ostentavam esparsos jardins, alguns inclusive apresentando fontes e esculturas de mármore.
Ensure your favorite authors get the support they deserve. Read this novel on Royal Road.
Era realmente outro mundo.
Micah, utilizando uma das suas poucas qualidades, observou que todos os postes de luz tinham suas velas acesas, no entanto, as cal?adas estavam completamente desertas:
— Por que o toque de recolher? — Perguntou por pura curiosidade, contemplando, pela janela da cabine, as várias flores exóticas que se faziam presentes nos jardins nobres.
— Hm? — Ezra levantou a cabe?a do ombro de um de seus guardas, despertando de seu quase sono. — Você faz muitas perguntas, hein? — Comentou, levemente irritado. — Mas, como um estudioso, tenho que respeitar essa sua curiosidade.
O alquimista alongou seus bra?os pregui?osamente por um momento, logo depois cruzando as pernas.
— Digamos que há tendo muitos... crimes, ultimamente. Um assassino em série tem matado brutalmente diversos nobres por todo o Reino, inclusive um dos meus aprendizes na capital. — Seu rosto franziu-se de forma inédita, Micah nunca havia visto Ezra t?o sério antes. Era quase bizarramente fora de personagem. — O desgra?ado deixou o rosto dele irreconhecível...
Ele respirou fundo, voltando à sua express?o calma e continuando com a explica??o:
— Pois bem, ninguém realmente sabe a motiva??o por trás de seus assassinatos, mas muitos acreditam que haja raízes rebeldes.
“Suas a??es fizeram com que um grupo terrorista tenha sido fundado em seu nome, e esse mesmo grupo tem causado alguns atentados nos últimos meses, incitando ainda mais atos de rebeldia.”
“Com isso, o Rei implementou esse toque de recolher como medida de seguran?a, além de ter severizado muito a puni??o para traidores. O que antes era apenas punível com a morte por enforcamento, agora o indivíduo traidor e toda sua família s?o levados as minas de Charbon para realizarem trabalhos for?ados, e confie em mim, até ser escravo é melhor do que isso.”
Micah sentiu um arrepio na espinha, afinal, a situa??o que ele estava já era o próprio inferno — De acordo com sua autopiedade, claro — o que poderia ser pior do que isso?
Os cantos da boca de Ezra se ergueram sutilmente enquanto olhava Micah. Era como se ele sentisse um leve deleite pela rea??o dele.
Logo a carruagem estacionou em frente à um casar?o simples. A propriedade se destacava sem esfor?o algum entre as mans?es, mas n?o da forma habitual: era quase um corpo estranho cravado no cora??o da nobreza.
Enquanto as demais residências exibiam fachadas altas com colunas, arcos, front?es ornamentados e jardins que pareciam competir entre si em exuberancia, a casa de Ezra era… desprovida. Micah sentiu essa falta antes mesmo de entendê-la com clareza.
N?o havia esculturas.
N?o havia fontes.
N?o havia vitrais coloridos brilhando sob as lamparinas externas.
N?o havia sequer uma maldita cerca ornamentada.
A casa parecia uma caixa retangular de pedra cinzenta, sólida e austera, com um telhado discreto e janelas pequenas — quase avaras de luz. O jardim, se é que aquele pequeno peda?o de terra árida poderia receber tal título, continha apenas duas plantas: um arbusto retorcido que parecia ter crescido ali por acidente, e uma única flor pálida, quase murcha, como se até ela tivesse desistido de competir com a vizinhan?a.
O contraste era t?o gritante que Micah quase riu.
Parecia que alguém tinha arrancado uma casa de um vilarejo rural e, por engano ou teimosia, plantado-a no bairro mais rico da cidade.
Mas havia mais.
Ele percebeu, depois de alguns segundos, que o minimalismo n?o era fruto de pobreza — longe disso. Era intencional.
A casa transmitia a mesma sensa??o que as marcas psicóides no port?o da ilha: funcionalidade absoluta.
Era uma máscara, do mesmo jeito que Ezra parecia ser uma máscara ambulante.
Entre todas as mans?es iluminadas como altares, aquilo era um buraco escuro — e, por ironia, foi justamente ali que Ezra decidiu viver.
— Bem-vindo ao meu lar. — Disse o alquimista, com uma satisfa??o quase infantil, descendo da carruagem como se apresentasse uma obra-prima. — é simples, mas… eficiente.
Micah hesitou antes de sair.
Havia algo na casa — algo silencioso demais, limpo demais, vazio demais — que despertou nele um pequeno nó de alerta.
N?o um medo explícito, mas aquela sensa??o que antecede um calafrio: a impress?o de estar prestes a entrar em um lugar que n?o foi feito para pessoas como ele.
Ezra virou-se para trás, o sorriso retornando lentamente ao rosto, mas desta vez com uma outra nuance — algo quase íntimo, mas igualmente perigoso.
— N?o se preocupe, Micah. — disse ele. — N?o costumo trazer convidados.
E ent?o a porta principal rangeu, abrindo-se sozinha, como se estivesse atendendo a um comando silencioso que Micah n?o percebeu. Por um breve instante, ele até pensou que fosse novamente a prata viva, mas a verdadeira culpada pelo movimento era muito menos intimidadora.
Uma garota ruiva, de baixa estatura e um rosto coberto por sardas, saiu parcialmente de trás da porta. Ela n?o parecia ter mais do que dezesseis anos, vestia um uniforme de empregada simples, a luz trêmula de seu lampi?o revelando algumas manchas em seu avental branco.
— Boa noite, Mestre Ezra... — Cumprimentou em um tom baixo enquanto saia do caminho, evitando contato visual.
O interior do casar?o quase t?o minimalista quanto seu exterior, com alguns poucos móveis. Sem grandes pinturas. Sem esculturas detalhadas. No máximo um candelabro e casti?ais de ferro espalhados para a ilumina??o do sal?o principal e o restante do imóvel, além de alguns vasos ornamentados em cantos mais vazios.
Ezra claramente n?o era um homem obcecado com ostenta??o como os outros nobres da regi?o.
Uma grande escadaria no final da sala conectava o térreo com o primeiro andar, acompanhada por uma porta discreta que levava diretamente ao alojamento dos servos.
à esquerda da entrada havia a sala de jantar com uma entrada para a cozinha, enquanto à direita uma sala de leitura. Suas estantes estavam equipadas com diversos livros, principalmente sobre práticas alquímicas e informa??es sobre materiais minerais e botanicos, além de alguns grimórios tratando sobre o Karma e biografias de grandes nomes da alquimia.
— Mestre Ezra, o senhor gostaria que eu prepara-se uma xícara de chá, ou talvez um banho pro senhor..? — A garota perguntou relutantemente, dando uma breve olhada em Micah, mas n?o dando-o aten??o.
— Um banho seria ótimo, mas primeiro, gostaria de lhe apresentar alguém...
Ezra saiu do caminho dos dois, trazendo-os mais próximos um do outro com entusiasmo.
— Andora, este é Micah, seu novo colega. Micah, esta é Andora, uma das minhas servas. — Completou com um largo sorriso, empurrando-os ainda mais perto.
Ambos estavam visivelmente desconfortáveis com a situa??o, era como se Ezra fizesse quest?o de tornar o encontro embara?oso.
Andora mostrou um sorriso rígido, for?osamente tentando parecer simpática:
— Erm... O-oi, prazer... te conhecer.
— O prazer é todo meu... — Finalizou a formalidade com um aperto de m?o constrangedor.
O alquimista p?s as m?os sobre os ombros deles, ele parecia... estranhamente impaciente.
— Que ótimo. Que lindo. Agora, vamos, Micah. Vou lhe mostrar onde vai dormir.
Logo em seguida, Ezra pegou um dos casti?ais e subiu as escadas juntamente com Micah, enquanto Andora e o seus guarda-costas ficaram no térreo.
Antes de subir, Micah olhou para a empregada mais uma vez, mas, havia algo de errado. Sob a luz de seu lampi?o, Andora parecia sentir uma profunda pena dele, como se ela soubesse de algo que ele nem sequer tivesse ideia.
O ruivo foi levado por um corredor escuro, até pararem em frente a uma porta, que Ezra abriu, revelando um quarto simples, mas aconchegante. O quarto tinha duas camas, um gaveteiro de carvalho — que também agia como criado-mudo — um espelho e uma janela com a vis?o da rua.
Micah estava genuinamente impressionado, afinal, por que Ezra daria um quarto t?o aconchegante e mobiliado para um relés escravo?
O alquimista abriu a primeira gaveta do gaveteiro, retirando um casti?al de lat?o e uma vela. Ele a acendeu com a outra vela que segurava e descansou ela em cima do móvel, o cheiro de cera de abelha logo preenchendo o quarto:
— Eu sei o que você deve estar pensando: — Ezra virou-se para Micah. — “Porquê um quarto assim para um escravo como eu?”. Pois bem, este quarto originalmente servia para alojar hóspedes, mas, você está ferido, e eu n?o quero a minha mais nova aquisi??o pegando uma infec??o logo no primeiro dia.
Ele apoiou-se na cabeceira de uma das camas, ativando seu hábito de balan?ar a m?o em meio à uma explica??o.
— Eu vou deixar você aqui até suas feridas se fecharem e esteja apto à trabalhar. Enquanto isso, descanse, se familiarize com seu novo lar e fa?a sei lá mais o que alguém desocupado faz. — O alquimista saiu do quarto, segurando a ma?aneta com a m?o livre. — Boa noite, Micah, aproveite a vagabundagem enquanto der. Aliás, há roupas limpas na segunda gaveta.
A porta fechou-se e Micah finalmente estava à sós. Ele sentou em uma das camas, soltando um longo suspiro, tanto de alívio quanto de exaust?o. Ele agora tinha tempo pra pensar em tudo que aconteceu nos últimos dois dias e, infelizmente, relembrar as dores corporais que tinha esquecido.
Agora, a sua prioridade era descobrir qual seria o seu plano de a??o. Ele quer voltar pro seu mundo, claro, mas como? Ele nem mesmo sabia o porquê de ter vindo aqui, ou sequer o que diabos é esse lugar.
Enquanto matutava sobre suas op??es, resolveu trocar de roupa, vestindo uma túnica bege e cal?as escuras. Aquele tecido rústico de linho realmente fazia sua pele pinicar, além de constantemente se enroscar nos pontos de suas costas, mas entre isso e voltar à usar sua roupa rasgada, encharcada de suor e fedendo à sangue, essa era a melhor op??o atual.
Ele lembrava vagamente do momento em que foi transportado à esse mundo, recordou de ter conversado com alguém que n?o via. No entanto, o conteúdo de tal intera??o continuava um borr?o n?o importava o quanto se esfor?ar-se. Ele também tinha consciência de que a Lua tinha algo haver com tudo isso. Pois, no momento de seu transporte, ele presenciou a luz da Lua o consumir até ele perder a consciência.
Micah n?o tinha mais nenhuma outra lideran?a, ent?o chegou à conclus?o que devia buscar mais informa??es sobre a Lua. No entanto, baseado em tudo que observou, esse mundo n?o possuía uma, ou talvez aquele cintur?o paira sobre o céu tivesse sido a Lua deste lugar?
Ele também aprendeu sobre o Karma. Neste mundo havia magia, — ou algo parecido com isso — ent?o, talvez, algo ou alguém tivesse mandado ele aqui com algum tipo de feiti?o? Mas tudo isso eram apenas hipóteses, ele n?o tinha ideia de qual seria o limite do Karma, ou se sequer essa magia poderia ter influência sobre seu mundo natal.
Sabendo de tudo isso, Micah levantou-se da cama e olhou para a janela, admirando aquele céu estranho, parcialmente escondido pelas duas constru??es megalomaníacas no centro de cidade, além daquele cintur?o de detritos que brilhava vagamente como o luar que conhecia, mas sempre acompanhado por aquela vis?o que o fazia perder o f?lego de t?o grandiosa, a que parecia mais com milh?es de neur?nios cósmicos conectados do que com estrelas.
Foi com essa vista que decidiu que o melhor a se fazer era adquirir mais informa??es, tanto sobre o Karma quanto o que, quem sabe, seria o Lua deste mundo — além de se tornar um homem livre, claro.
Hrm...
Como se tivesse inteligência, ou sequer determina??o pra isso.
Quando cansou-se vista, fechou a janela e virou-se pro espelho. Ele passou os dedos por cima do corte em seu rosto, checando os pontos feitos por Ezra. Logo em seguida tirou uns peda?os de terra e palha que haviam grudado em seu cabelo cor de fogo.
Micah nunca havia entendido porque seu cabelo tinha uma cor t?o intensa naturalmente. Todos que perguntavam sobre isso sempre assumiam que ele pintava o cabelo, e quando negava, simplesmente n?o acreditavam nele. O mais estranho era que sua m?e era morena, e ninguém de sua família sequer chegava perto de ter os cabelos ruivos.
Sempre que perguntava sobre seu pai biológico, — n?o o ex-noivo dela, já que eles nunca tiveram rela??es sexuais por conta da doutrina evangélica dele — ela sempre contava a mesma história estranha. Micah queria acreditar nela, de verdade, mas isso era impossível. Ent?o conectou os pontos e chegou a conclus?o que ela foi violentada, e inventou essa história para lidar com o trauma, nunca mais tocando no assunto com ela.
Sua sess?o de lembran?as foi interrompida por uma leve, quase tímida, batida na porta. Quando abriu-a n?o havia ninguém, apenas uma bandeja com um ensopado de verduras, um peixe assado de carne vermelha que ele nunca viu antes, um p?o amanhecido e um copo d’água sobre ela.
Ele olhou nos dois lados do corredor vazio antes de pegar a bandeja. Provavelmente quem o entregou isto foi aquele empregada que conheceu hoje. Ele n?o sabia suas origens, mas ele n?o comeu nada nesses dois dias e seu est?mago doía de fome.
Depois de comer — e de quase morrer engasgado com uma espinha de peixe — ele deixou a bandeja no pé de sua cama, apagando a vela com um sopro e se deitando em uma das camas. Ele observou o teto por um tempo, até que seus olhos pesaram e finalmente adormeceu, satisfeito e em paz.
Mas n?o por muito tempo.
...
O frio veio primeiro.
Uma lamina gelada deslizando pela espinha, se infiltrando devagar entre as costelas. Micah encolheu-se — ou tentou — antes mesmo de abrir os olhos. Ele aspirou fundo, e sentiu o ar duro, estagnado, como se estivesse respirando dentro de uma caixa fechada há anos.
Depois veio o som.
Tec… tec… clinc.
Fragmentos de vidro batendo uns nos outros, frascos sendo alinhados. Algo denso caiu dentro de uma bandeja de metal, produzindo um eco abafado, como se a sala estivesse engolindo qualquer ruído antes que pudesse se espalhar.
Micah franziu a testa. Ainda no limiar entre o sono e a vigília, pensou que estivesse ouvindo alguém mexer em lou?as na cozinha de sua m?e. Mas havia algo errado: o silêncio em volta parecia grande demais, espesso demais. Como se o ar estivesse amortecido. Como se as paredes tivessem sido projetadas para esconder segredos.
Ele finalmente abriu os olhos.
A escurid?o n?o recuou muito. A única luz vinha de um porta-tochas preso à parede, próximo a uma bancada coberta de frascos, laminas e instrumentos metálicos cujo brilho ondulava na ilumina??o trêmula.
A sala era estreita. Sem janelas. Sem frestas. As paredes eram grossas, revestidas com camadas de madeira comprimida e couro escuro — isolamento acústico. O ch?o era de pedra fria.
E, de costas para ele, completamente mergulhado no trabalho, estava Ezra.
O alquimista estava usando um jaleco e luvas pretas e segurava um frasco pequeno, azulado e levemente luminescente entre dois dedos, com a delicadeza de quem segura um inseto raro. Ele despejou uma minúscula gota desse líquido em outra solu??o, ouviu o ping metálico, e despejou a mistura em um Becker. N?o parecia ter notado que Micah acordara.
Micah tentou levantar o bra?o direito.
Nada.
Tentou o esquerdo.
Nada.
Um tremor percorreu sua garganta até se transformar num solu?o curto. Ele ergueu a cabe?a — o máximo que podia — e só ent?o percebeu: estava deitado sobre uma mesa de metal, completamente preso por tiras largas de couro cinza, apertadas ao ponto de morderem sua pele.
O ar sumiu.
Um panico primitivo, quente, apagou todo pensamento racional. Micah come?ou a puxar o corpo contra as tiras, sentindo-as rangerem, mas sem ceder. O metal frio sob as costas parecia uma placa de gelo segurando seu cora??o.
— N–n?o… — escapou dele, quase sem voz. — Ezra? Ezra?!
As tiras apertaram mais quando ele se mexeu, como se tivessem sido ajustadas exatamente para impedir qualquer fuga impulsiva. O som de seus movimentos ecoou abafado, sugado pelas paredes.
Ezra, por fim, parou o que fazia.
— Ah — disse ele, sem surpresa. — Você acordou.
Virou-se.
Seu rosto estava tranquilo, mas n?o havia qualquer empatia nos olhos — apenas a calma meticulosa de alguém que vê um fen?meno reagindo exatamente como previsto.
— Bom dia, Micah. Espero que tenha dormido bem. — Cumprimentou como se n?o houvesse nada de errado, seu rosto de cabe?a pra baixo pela vis?o de Micah.
Micah puxou o ar pela boca, mas foi como tentar beber por um funil entupido. O desespero queimava no peito.
— Q-Que porra é essa, Ezra?! M–me solta! Por favor… por favor…
Ezra inclinou a cabe?a de leve, como quem avalia o pedido de um paciente que n?o entende seu próprio tratamento.
— Calma, Micah. Shh... — Seu tom era suave, suave como de um pai que consola o filho, ao mesmo tempo fazendo um cafuné no cabelo dele. — Se você continuar se debatendo, vai acabar rasgando sua pele. E, honestamente… eu preferiria que isso n?o acontecesse agora.
A tocha estalou ao fundo.
As sombras se moveram.
Ezra abaixou a cabe?a até a orelha de Micah, diminuindo o tom, n?o de forma suave, mas como um assassino que pressiona a faca contra o pesco?o da vítima:
— Você acha que eu n?o perceberia, n?o é?
— D-do que você tá falando? — Gaguejou Micah, sentindo suor escorrendo na sua nuca, apesar do frio.
— N?o se fa?a de desentendido, Micah...
“Eu sei do seu segredo...”
“Eu sei que você...”
“...veio de outro mundo.”

